Por Patrícia Marcondes de Barros
Há algum tempo acompanho a trajetória de Aristides Oliveira, historiador, pesquisador, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e um dos editores da revista Acrobata. Sua caminhada intelectual se entrelaça à própria memória da cena independente de Teresina, da qual vem registrando personagens, experiências, sons e histórias que, de outro modo, poderiam se perder no tempo. Seu trabalho nasce de um lugar particularmente potente: o encontro entre a pesquisa histórica e a experiência vivida, entre o olhar do historiador e a memória de quem acompanhou de perto os espaços, as bandas, os artistas e as movimentações que deram forma ao underground piauiense.
Autor de livros como Outsider: Asseclas na cena rock em Teresina e Vozes do Punk, Aristides vem construindo uma obra dedicada a recuperar histórias que muitas vezes permaneceram fora dos registros oficiais da cultura brasileira. Seus livros percorrem shows, discos, bandas, personagens, lugares e acontecimentos, mas também revelam uma rede de afetos, amizades, conflitos e formas de criação que ajudaram a constituir uma cena independente em permanente diálogo com seu tempo.
Esse olhar se amplia em sua pesquisa sobre Jomard Muniz de Britto, figura singular da contracultura brasileira, cuja trajetória transita pelo cinema, literatura, poesia e música, em permanente diálogo com a experimentação artística. Ao se debruçar sobre a obra e o percurso de Jomard, Aristides também investiga as conexões entre criação, transgressão e pensamento crítico, aproximando diferentes experiências da cultura brasileira que desafiaram os limites estéticos e comportamentais de suas épocas.
Entre a cena punk e o rock independente, os arquivos e as memórias de seus protagonistas, sua pesquisa revela uma preocupação comum: compreender como essas experiências aparentemente dispersas se transformam em história e como a cultura produzida às margens dos circuitos oficiais pode iluminar, de maneira muito particular, o próprio tempo em que foi criada.
Em julho deste ano, Aristides lançou Óbitus: 30 anos de porrada, seu mais recente livro junto a Altaíde Pedreira, dedicado a banda Obtus, uma das mais experientes da cena independente de Teresina. A obra dá continuidade à pesquisa que o historiador vem desenvolvendo sobre a história do rock na cidade desde 2018, ampliando um percurso que já passou por bandas, personagens e diferentes momentos dessa cena. Acompanhe a entrevista que fiz com ele.
Patrícia - Aristides, ao longo da sua trajetória como escritor e historiador você vem construindo um importante trabalho de registro e interpretação do underground nordestino, especialmente da cena piauiense, em obras como Sem Palavras (2010), Jomard Muniz de Britto e o Palhaço Degolado (2016), Adão e Eva do Paraíso ao Consumo (2017), Asseclas à Procura de Identidade (2019), Chakal (2021) e Vozes do Punk (2023). Seus livros revelam um compromisso com histórias que muitas vezes permanecem fora dos registros oficiais da cultura brasileira. O que despertou em você esse interesse em transformar experiências da margem em documentos históricos? Como nasceu esse olhar de pesquisador sobre o underground?
Aristides - Duas pessoas são fundamentais nessa trajetória pelo tema: Jaislan Monteiro e Edwar Castelo Branco. Há vinte anos atrás, conheci Jaislan que estava pesquisando filmes piauienses marginais dos anos 70, sob orientação do professor Edwar. Minha amizade com ele me aproximou do seu objeto de pesquisa. Comecei a assistir os filmes da boca do lixo e os super 8 nordestinos e fiquei encantado com aquele universo, que desorganizou minha cabeça (no bom sentido) e redefiniu minhas perpectivas sobre a arte de modo geral, ampliando os horizontes de um jeito que até hoje não sei explicar.
Na época, Edwar estava me orientando numa pesquisa sobre história do Teatro piauiense, fruto do meu envolvimento com a cena local naquele tempo. Numa dessas idas e vindas para eventos acadêmicos, fui à Recife levantar material sobre a possível presença do Piauí em festivais na capital pernambucana. Lá encontrei um grande pesquisador no assunto, Leidson Ferraz. Articulei contato com ele e o conheci na sua casa, quando fui gentilmente convidado para ir lá.
A conversa foi produtiva e ganhei de presente a coleção de livros que ele escreveu sobre a história do teatro pernambucano. Num dos volumes, fiquei apaixonado pela trajetória do Vivencial Diverciones. Eles afrontaram a ditadura com seu teatro queer e vários trabalhos do grupo foram filmados por Jomard. Busquei de conhecer mais sobre esse cineasta e quando me deparei com os estudos de Ricardo Maia Jr (que também virou um amigo durante a pesquisa), assisti vários filmes.
Me impressionei com O Palhaço Degolado (1977) e logo fui comentar com o prof. Edwar, que já tinha experiência com os filmes de Jomard no período que fez seu doutorado. Ele me convidou para estudar a obra num projeto de iniciação científica e desde então nunca mais parei de aprofundar minhas leituras sobre o anti-professor famigerado. Como sou inconveniente, coloquei algumas roupas na mochila e fui até Recife uma dezena de vezes visita-lo ao longo dos dez anos que dediquei meu tempo aos seus filmes. Estou retomando agora com um novo livro que sairá em 2027, em comemoração aos seus 90 anos.


Sobre meu envolvimento com pesquisas envolvendo música piauiense, especificamente o rock, é resultado de minha imersão desde a adolescência nos shows que meu amigo Demetrios Galvão me levava. Desde 1999, quando fui ao meu primeiro show da banda Diagnose até virar um ouvinte atento, tenho muito interesse por música e frequentei espaços underground pela cidade de Teresina, mas antes meu radar era a rádio, em que escutava tudo o que se passava até filtrar meu gosto musical na infância.

Nessa experiência de conhecer as sonoridades de Teresina, duas bandas me conquistaram e até hoje são as minhas favoritas: Asseclas e Obtus. Elas sempre estiveram no meu set list caseiro, mas nunca imaginei que um dia se transformariam em tema de pesquisa. Em 2018, pensei em fazer uma homenagem ao Asseclas gravando um documentário. E daí nasceu o filme realizado em parceria com Gilson Caland e Adriano Lobão chamado “Asseclas à procura de identidade” (2019).

Percebi que após finalizar o documentário, muitos jornais e arquivos que levantei ficaram fora do audiovisual por questões de limite de tempo para abordar ali. Então achei que seria legal escrever um livro para ampliar os desdobramentos que o filme não deu conta e outra pesquisa surgiu nesse processo: “Outsider: Asseclas na cena rock em Teresina” (2021).Me empolguei com o resultado e despertei o desejo de contar a história de outros nomes que influenciaram minha formação musical e novos projetos foram aparecendo. Como o punk rock é meu gênero musical favorito no conjunto de bandas que escuto na cidade, nada melhor do que fazer uma entrevista com uma das referências da capital: Altaíde Pedreira, vocalista da banda Obtus.
A conversa fluiu de um jeito tão bom que sua memória iluminou vários lugares do passado que me fez transformar aquela conversa em algo maior. Fomos mergulhando em várias lacunas que sua fala provocava, aprofundando aspectos sociais que marcaram Teresina nos anos 90 e destacando lembranças que ajudam a compreender a importância não apenas da biografia dele, mas de uma geração. E assim publicamos, em parceria com Heitor Matos - o livro “Chakal” (2021).
Depois pensei: “e se eu organizar um livro que conta a história de outras bandas punks na cidade?”. Mal lancei “Chakal” e me organizei com outro parceiro mais antenado na cena do que eu (Eduardo Djow) e fomos entrevistar dezenas de outras pessoas que fizeram e fazem história no punk piauiense, focando na atuação em bandas que marcaram a história do som entre 1987 até 2021.
Assim temos “Vozes do Punk”, uma cobertura de entrevistas que conduz o leitor(a) a várias épocas e estilos que atravessou nossa geração na cidade. Lembro que recebi uma crítica sobre a coletânea não ter mulheres envolvidas com o punk, reduzindo minha pesquisa a algo “machista”, que só deu voz aos homens. Quem fez a acusação não estava presente nos bastidores e ficou sem saber que, durante o levantamento de pessoas para participar do projeto, mulheres estavam na lista. Das mulheres que se encaixavam com a proposta do livro (integrantes de bandas de rock), não conseguimos localizá-las dentro do prazo de finalização do projeto. Outro nome que aceitou ser entrevistada passou seis meses prometendo nos encontrar para fazer seu relato ao livro, mas não deu retorno concreto a nenhuma das minhas tentativas de contato, talvez por problemas de agenda. Insisti, buscando marcar a entrevista, mas como ela parou de responder, não quis ser inconveniente, já que passei muito tempo tentando construir esse diálogo e o livro tinha prazo para ser concluído.
A crítica improdutiva até que possui lá sua importância, pois alguém, mesmo com comentários de má fé que não acrescentam nos estudos, pelo menos dedicou parte do seu tempo para ler o livro e isso está de bom tamanho. Estou muito feliz com o resultado dessa pesquisa. Acredito que é a primeira na cidade que faz esse tipo de levantamento geracional.
Patrícia - Ao investigar essas cenas, você trabalha com memórias, narrativas pessoais e manifestações culturais que muitas vezes não foram reconhecidas pelos circuitos tradicionais da história da música. Como você compreende o papel dessas pesquisas para ampliar a própria noção de patrimônio cultural e para revelar outras formas de sociabilidade, criação e resistência protagonizadas pelas juventudes?
Aristides - Acredito que essas pesquisas são fundamentais para dar visibilidade as histórias que muitas vezes perdem espaço para narrativas que concentram suas atenções para produções artísticas consolidadas no mainstream. A consequência nociva disso é limitar o raio de alcance de bandas e realizadores(as) que fizeram parte de uma geração que demarcaram uma posição firme na sua época, mas tiveram pouca atenção da imprensa ou pouca oportunidade de fazer sua arte girar, no circuito que fechava as portas para quem não se adequava aos moldes do mercado.
Felizmente temos um grande número de historiadores(ras) que dedicam seu olhar para essas práticas, porém, é necessário tornar os estudos publicados mais acessíveis ao público que está fora da Universidade. Em vez de lançar livros sobre a contracultura em Cafés e salões da área nobre da cidade e artigos PDF nos sites que os ouvintes nem sabem que existem, vamos sair um pouco dos departamentos e festejar essas pesquisas numa roda punk, num baile, no bar, chamar uma banda para tocar enquanto a gente compra o livro e toma cerveja, essas coisas que a universidade não faz.
Patrícia - Diante de tantas bandas que construíram suas trajetórias longe dos grandes centros, o que há de singular na história da Obtus que a tornou objeto de um livro e revela aspectos importantes do rock independente brasileiro?
Aristides - Escrever “Obtus: 30 anos de porrada”, além de ser mais uma homenagem ao Chakal, é uma comemoração aos trinta anos de história da banda. Essa pesquisa visa compartilhar com os leitores(as) interessados(as) no assunto as dificuldades que as bandas de rock possuem em divulgar seu trabalho numa cidade que não oferece muitas condições para constituir um espaço amplo dedicado ao gênero, bem como as alegrias de um grupo que nunca perdeu a coerência sonora e jamais se dobrou às exigências do showbusiness para fazer sucesso comercial. Obtus nunca parou de tocar, mesmo com as limitações de locais para fazer shows e o pouco reconhecimento da mídia em relação ao punk rock. São trinta anos de atividades sem pausas, hiatos ou desculpas para desistir numa Teresina que sufoca o ar de artistas que não se rendem as fórmulas de sucesso ou buscam se fortalecer no underground. Obtus ainda é que o temos quando o assunto é originalidade.
Patrícia - Como foi o processo de pesquisa e reconstrução da trajetória da Obtus a partir de entrevistas, documentos e acervos pessoais, e houve algum relato ou material que trouxe uma nova perspectiva sobre a história da banda?
O que facilitou todo o trabalho foi o espírito arquivista do Chakal, que guarda com muito zelo todos os arquivos sobre a banda. As suas pastas contêm um verdadeiro arsenal que auxilia os historiadores(ras) de música a contar a história de mais de trinta anos do que rolou na cidade.
Tive acesso a tanta informação que ultrapassa as experiências da Obtus que fiquei angustiado por não conseguir dar conta de narrar a trajetória de tantas bandas que atuaram em Teresina nessas décadas. Estou pensando em fazer um livro catalogando todos esses jornais, fanzines, cartazes e um farto material que conta a história de outras bandas que fizeram história ao lado da Obtus há trinta anos atrás. O levantamento do material de pesquisa estava todo em nossas mãos, porque é um hábito dos músicos com quem tive a oportunidade de trabalhar ter em casa um acervo com suas vivências catalogadas, data por data, jornal por jornal, revista por revista, tudo em perfeita sintonia com os períodos que precisava estudar.
Um diferencial que o livro traz é uma entrevista que fiz com os integrantes da banda. Eles abrem suas caixas de memórias e relatam uma série de experiências marcantes que fizeram a história da banda. O que me deixou feliz nessa conversa foi perceber a preocupação deles em contar a história seguindo uma ordem cronológica, para que nada passasse em branco. Assim, além dos arquivos impressos devidamente preservados, a história oral vira nossa aliada. É uma sorte muito grande, mas não deixo de ir ao Arquivo Público descobrir se alguma brecha passou despercebido e assim vamos alinhando o tempo de modo que o leitor(a) possa conhecer com o máximo de riqueza e detalhe a história que está desbravando.
Patrícia - Por que o underground ainda ocupa um espaço tão reduzido na historiografia cultural brasileira e o que essas cenas podem revelar sobre formas de produzir cultura fora dos espaços institucionalizados?
Aristides - O próprio Heitor é uma peça importante na construção da história do underground em Teresina. Ele escreveu sobre o tema antes de mim e, a partir dele, me senti a vontade em contribuir com o assunto, já que a universidade está cada vez mais aberta para receber esses estudos. Eu acho que estamos numa boa fase de pesquisas sobre cinema, música, literatura e outras artes produzidas no espectro do underground brasileiro. A questão que me incomoda é o isolamento que a academia ainda vive em relação à comunidade leitora. Muitos trabalhos bem feitos ficam restritos aos espaços departamentais e são pouco divulgados ao grande público, virando “banco de dados” nos sites das instituições acessadas apenas pelos próprios pesquisadores, numa bolha que reduz o contato dos textos ao leitor(a) que gosta de arte e não é do meio acadêmico. A universidade é um espaço fundamental para dar sentido as pesquisas sobre o underground, mas precisa atuar de forma mais capilarizada, ampliando seus laços com o público consumidor dessas linguagens que frequenta shows, saraus, exposições, marcando presença na vida dessas pessoas através de publicações direcionadas a elas e não apenas aos grupos de pesquisa, eventos acadêmicos destinados apenas a especialistas e palestras que passam longe dos olhos do público verdadeiramente interessado.
Patrícia - Ao longo da pesquisa, a trajetória da Obtus revelou uma dimensão que ultrapassa a música: vínculos de amizade, pertencimento, identidade e construção de uma comunidade. Em que momento você percebeu que estava diante não apenas da história de uma banda, mas do registro de uma experiência coletiva e afetiva de uma geração?
Aristides - Frequento os shows dos caras desde os meus quinze anos. Hoje tenho 41 e nunca perdi a vitalidade quando os vejo tocar. Então não posso negar que a condição de fã vem antes do papel de pesquisador. Esse livro não é apenas um trabalho que se encaixa nas formalidades de uma pesquisa sobre música, mas uma homenagem à minha geração e aos que vieram antes de mim, que ainda frequentam os shows de rock na cidade e tem nesse som o combustível para manter a jovialidade e a alegria. Cada acorde, refrão e letra da Obtus representa a insatisfação da minha geração contra as injustiças sociais e políticas que atravessam o tempo. Ouvir a banda é fazer coro às suas críticas, cobranças, reivindicações e principalmente: fortalecer nosso posicionamento anti-fascista e jamais tolerar a normalização das práticas e avanço da extrema-direita.A história da Obtus se confunde com a nossa história.
Patrícia - A cena underground do Piauí se desenvolveu em um contexto marcado pela distância dos grandes centros culturais e pela concentração da indústria musical no eixo Rio-São Paulo. Como era criar, divulgar e manter uma banda de sonoridade extrema em Teresina nos anos 1990? Que redes alternativas foram fundamentais para a sobrevivência dessa cena?
Aristides - Apesar da imprensa oficial hoje não dar espaço para que artistas da cena underground em Teresina divulgarem seus espaços de atuação (devido a preguiça dos nossos jornalistas em explorar esses lugares e outra parcela simplesmente desconhecer esse universo), a década de 90/2000 foi um período que havia crítica cultural na cidade. Nas minhas pesquisas, localizei vários artigos em que jornalistas se posicionavam livremente em torno dos eventos culturais ligados à música, seja para elogiar ou fazer ressalvas a shows e discos que foram lançados. O jornalismo piauiense na década de 90/2000 possuía um lugar de crítica musical estimulante, pois os profissionais realmente frequentavam os shows, ouviam as músicas, faziam análise sobre a o que estava acontecendo na capital, o que não temos hoje. Mesmo assim, foram nos fanzines que muitas bandas de punk e metal conseguiam fazer seu trabalho circular. Posso citar o zine Resistência Anarco-Punk, Intestino Podre, Baby Hell, Parricide Zine como exemplares que era a internet analógica daquele tempo. Graças a esses meios de comunicação alternativos a galera ficava sabendo das novidades sonoras e das datas dos próximos eventos que pulsavam numa cidade em que boa parte do público desconhecia. As bandas se mantinham pela paixão em tocar, com a expectativa de atender o público que frequentava os shows e mantinha a cena funcionando. Muitos músicos não tinham um estudo formal, acadêmico ou dominava uma técnica há longo prazo. A maioria aprendia a dominar o instrumento com a prática nos ensaios e elaborando seu próprio método de aprendizado. Não havia cachês, um palco separando o público dos músicos, camarins e badalação da imprensa. Tudo era movido pelo desejo de expressar seus anseios em letras autorais, que revelam as condições socioculturais daquela juventude inquieta.
Patrícia - Ao revisitar a história da Obtus e de outras manifestações underground que você pesquisou, que lugar o Piauí e o Nordeste ocupam na história do rock brasileiro e que outras histórias ainda permanecem por descobrir e recontar fora dos grandes centros?
Aristides - Sim, tem muita coisa para ser descoberta, muita história não-dita e bastante material que circula apenas nos eixos em que foram pesquisados. Já sabemos que as bases da história do rock não se limitam ao eixo Brasília-São Paulo, mas o que estamos fazendo para que as histórias musicais do Nordeste sejam conhecidas Brasil à fora? Nosso mercado editorial ainda é tímido em relação as produções dos eixos consolidados e o espaço para fazer o material circular segue em crescimento, mas ainda não tem envergadura para alcançar leitores fora do Piauí. Repito a problemática das pesquisas acadêmicas de qualidade serem apenas banco de dados para atender um público restrito, onde os próprios estudiosos(as), em sua maioria, não transformam suas dissertações ou teses em livros para chegar nas mãos do público que curte som. Acredito que essas questões poderiam ser debatidas para encontramos uma forma de fazer a escrita do rock nordestino sair da condição “regional” e alcançar outro status de visibilidade.
Patrícia - Que lugar o Piauí e o Nordeste ocupam na história do rock brasileiro, ainda marcada pelos grandes centros?
Aristides - Atualmente estou envolvido na organização do livro “Um diabo no Piauí: os desenhos satânicos de Edilberto Sobrinho”. Será um artbook que narra a trajetória de um dos artistas visuais mais talentosos que conheci e, por seu trabalho tocar em temas considerados como “tabu” social, já imagino que a repercussão será bem intensa, pois a obra é uma afronta a tudo que a sociedade não ousa discutir, que é o mal que a religião pode causar numa pessoa e os efeitos desse trauma. Em paralelo, estou escrevendo meu terceiro livro sobre Jomard, abordando sua fase de produção intelectual entre 1953 a 1964, pontos que ainda não havia explorado e em breve essa novidade estará circulando aos interessados na sua contribuição ao pensamento brasileiro.
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