Por Patrícia Marcondes de Barros
Entre desenhos, quadrinhos, filmes em Super-8, revistas e outros documentos, o Acervo Arnaldo Albuquerque preserva fragmentos de uma cena contracultural que se desenvolveu em Teresina nos anos 1970.
Quando se começa a pesquisar a contracultura brasileira, uma das primeiras dificuldades encontradas está justamente no acesso às fontes. Essa questão se torna ainda mais evidente quando o olhar se desloca dos grandes circuitos culturais, especialmente do eixo Rio–São Paulo, para outras regiões do país. A contracultura, entretanto, não se limitou aos circuitos culturais já reconhecidos pela historiografia. Em diferentes cidades e regiões, jovens artistas, escritores, músicos, cineastas e outros produtores culturais criaram suas próprias formas de experimentar linguagens, comportamentos e modos de vida. Muitas dessas experiências, porém, permaneceram pouco documentadas.
É nesse ponto que os acervos e arquivos assumem uma importância fundamental. Fotografias, revistas, desenhos, cartas, cartazes, filmes, discos, manuscritos e outros vestígios podem revelar personagens, relações e experiências que ficaram à margem das narrativas mais conhecidas da história cultural brasileira.
Grande parte desse material, no entanto, permaneceu dispersa durante décadas. Documentos ficaram guardados em casas, gavetas, caixas e coleções familiares. Outros foram descartados, desapareceram ou se deterioraram antes que fossem reconhecidos como fontes capazes de contar uma história.
Para quem pesquisa a contracultura, o problema muitas vezes começa antes mesmo da interpretação dos documentos: é preciso descobrir onde eles estão.
Arquivo, acervo e memória
É importante distinguir arquivo de acervo. Embora frequentemente usados como sinônimos, não designam exatamente a mesma coisa. O arquivo reúne documentos produzidos e acumulados por uma pessoa, grupo ou instituição ao longo de suas atividades; o acervo, por sua vez, corresponde a materiais reunidos e preservados segundo diferentes critérios.
Essa distinção permite compreender o arquivo para além de sua dimensão material. Arquivar não é apenas guardar o passado, mas selecionar, organizar e atribuir sentidos ao que será preservado. Como observa Jacques Derrida em Mal de arquivo: uma impressão freudiana, todo arquivo envolve escolhas: o que permanece, o que é descartado, o que se torna acessível e o que desaparece. Arquivar é, portanto, também produzir memória.
Essa questão ganha especial importância no caso da contracultura, cujos registros, muitas vezes produzidos fora dos circuitos institucionais, estiveram sujeitos à dispersão, ao descarte e ao desaparecimento. Muitas experiências sequer chegaram à imprensa ou às instituições de memória.
Recuperar esses vestígios significa investigar não apenas o que foi preservado, mas também o que ficou à margem das narrativas históricas. Mesmo com a digitalização e a ampliação do acesso às fontes, muitos acervos permanecem sem catalogação ou são pouco conhecidos pelos pesquisadores.
É nesse espaço entre memória, esquecimento e preservação que os acervos da contracultura ganham importância: eles permitem reconstruir trajetórias, redes culturais e experiências que permaneceram à margem das narrativas mais conhecidas, revelando mapas culturais que ainda aguardam ser percorridos.
Teresina e uma outra história da contracultura
É a partir dessa perspectiva que esta série do Arquivo dos Instantes pretende percorrer alguns desses lugares de memória: espaços onde sobrevivem fragmentos de experiências contraculturais capazes de ampliar nossa compreensão da história cultural brasileira.
Em Teresina, no Piauí, a contracultura também encontrou suas próprias formas de existir. Longe dos grandes centros culturais do país, uma geração de jovens experimentou novas linguagens, comportamentos e formas de contestação durante os anos 1970. Entre desenhos, quadrinhos, filmes em Super-8, animações e intervenções urbanas, esses artistas construíram uma produção que desafiou os padrões culturais de seu tempo.
No centro dessa história está Arnaldo Albuquerque (1952–2015), artista múltiplo e um dos nomes mais importantes da cena underground teresinense.
Sua produção atravessou diferentes linguagens e deixou registros singulares da contracultura no Piauí. Entre seus trabalhos estão a revista Humor Sangrento, animações como Carcará, pega, mata e come, filmes em Super-8 e outras experiências audiovisuais.

Arnaldo foi também um personagem de muitas fronteiras: desenho, cinema, humor e crítica, cultura local e as referências que chegavam de fora. Sua obra revela uma juventude que buscava experimentar outras possibilidades de existência em uma cidade ainda marcada por valores conservadores. Mais do que simplesmente reproduzir referências estrangeiras, essa geração as reelaborou a partir da própria experiência teresinense, criando linguagens particulares.

A memória que sobreviveu
Ao longo dos anos, fotografias, desenhos, livros, revistas, filmes e documentos relacionados à trajetória de Arnaldo permaneceram espalhados. Parte desse material sobreviveu em coleções familiares e pessoais, enquanto outros vestígios precisaram ser localizados, reunidos e preservados.
A tarefa de guardar e dar visibilidade a esse legado acabou sendo assumida pelo historiador e poeta Bruno Baker (sobrinho de Arnaldo) e Fabrício Castro, responsáveis pela preservação e divulgação de sua obra.
Bruno Baker e o Acervo Arnaldo Albuquerque
Conversei com o Bruno Baker sobre a trajetória de Arnaldo Albuquerque, a formação e a preservação do acervo, os materiais que sobreviveram, as perdas, as descobertas e os desafios de manter viva uma obra que, durante muito tempo, circulou pelas margens.
Mais do que recuperar a memória de um artista, conhecer esse acervo é entrar em contato com os vestígios de uma Teresina que, nos anos 1970, quis experimentar, transgredir e inventar seus próprios caminhos.
Confira, a seguir, nosso papo.
Patrícia - Bruno, como nasceu o Acervo Arnaldo Albuquerque e o que motivou a decisão de preservar essa memória cultural do Piauí?
Bruno - O Acervo com critérios de arquivologia não existe, porque que é um Acervo à margem da margem. O Acervo nasceu da necessidade imediata contra a espiral do silêncio em torno da vida-obra de Arnaldo Albuquerque. Um Artista que se casou com a Arte. Decisão de preservar veio num esporro dele em sonho me pedindo para salvar o Acervo do ostracismo cultural familiar. Um história louquíssima, cheia de destruição e salvação. Danação artística é algo fascinante. O Piauí tem a fascinação de cuspir e louvar seus melhores filhos. Depois que a máfia da cajuína instituiu que só existe Torquato Neto estamos aqui para apresentar a obra multifacetada de Arnaldo.

Patrícia - Quem foi Arnaldo Albuquerque para além de sua produção artística? Que personagem da cultura piauiense emerge quando vocês revisitam seus documentos, imagens e registros?
Bruno - Arnaldo Albuquerque é o que consideramos "polímata", suas ARTEmanhas redefiniram um modo de verlerouvir Theresyna. Um dos primeiros cineastas experimentais do Piauí com sua câmera se subdividindo entre desenhos animados, artes plásticas, zincogravura, filmes como: Terror da Vermelha, Adão e Eva do paraíso ao consumo, Vãpirações, tirinhas de jornal... Arnaldo Albuquerque foi um outsider, boêmio inveterado, uma chama de fogo prestes a explodir e contaminar, um Vírus da linguagem. Seu Acervo tem uma importância do ponto de vista sócio-cultural como meio de se compreender uma Contracultura Piauiense. Arnaldo Transgrediu por fotografias de uma Theresyna antiga e produções gráficas em jornais alternativos como : O Gramma, O Estado Interessante, A hora-Fatal...
Patrícia - O que o acervo revela sobre a cena cultural e a contracultura do Piauí, especialmente sobre música, artes visuais, imprensa e comportamento, que talvez ainda seja pouco conhecido?
Bruno - Reflete também um desarranjo do próprio Arnaldo com sua obra. Deu para salvar um vasto material de hqs antigas, slides fotográficos... Jornais da época com suas produções chargisticas pioneiras retratando a cidade. Na música ele foi um dos produtores e fez cartaz do show "Udigrudi" numa famigerada churrascaria chamada Beira-rio( próximo ao Rio Parnayba) em 1973. Foi um dos primeiros a ganhar prêmio no 1 salão de Artes plásticas do Piauí 1969. Em comportamento tem um jornal interessante chamado "Boquitas Rouge", pelo fato de Arnaldo com visual Andrógino beijavas as pessoas na boca na porta de entrada de uma boate da pesada na noite dos anos 70.
Museu de História do Piauí - Jornais Alternativos
Patrícia - Entre fotografias, cartazes, manuscritos, jornais e outros materiais, existe algum documento ou objeto do acervo que tenha uma história particularmente surpreendente?
Bruno - Sim dos jornais e revistas como "Movimento, Balão, O Pasquim (1971 saiu um cartum de Arnaldo), revistas Polem, (raridade), Almanaque biotônico vitalidade.... Os filmes super 8 foram um achado surpreendente. Estavam intactos quanto a peça, entretanto ficou um enigma de quem poderia ter em Theresyna algum projetor de super 8. Inúmeras gravações dos anos 70 e 80. Todo esse material literalmente ia para o lixo da história.
Patrícia - Pensando especificamente na relação do Acervo Arnaldo Albuquerque com a contracultura piauiense, que tipos de documentos e materiais estão preservados ali, como esse acervo foi sendo reunido e construído ao longo do tempo e de que maneira pesquisadores e interessados podem ter acesso a esse material?
Bruno - Os materiais são variados: revistas, entre elas algumas de HQs e revistas de invenção estas, bastante raras, desenhos esparsos, trabalhos publicados em jornais e catalogados pelo próprio Arnaldo, fotografias em slides e cartuchos de Super-8. Alguns desses filmes estão catalogados; outros permanecem sem identificação ou nomenclatura. O material foi sendo reunido às pressas, porque a casa onde estava guardado seria esvaziada e ocupada. Consegui salvar muita coisa. Por enquanto, os pesquisadores interessados devem se dirigir ao NUPEM, da Universidade Federal do Piauí, Núcleo de Pesquisa Historiográfica da universidade. Recentemente, o núcleo digitalizou jornais e outros documentos relacionados a Arnaldo, tendo como ponto de partida materiais sobre cinema, hemeroteca e contracultura.
Patrícia - A criação da Sala Arnaldo Albuquerque no MIS-PI representa um passo importante para a preservação da memória das artes visuais e da contracultura piauiense. Qual é a importância dessa iniciativa e o que ela representa para a preservação e a divulgação da obra de Arnaldo?
Bruno - A criação da Sala Arnaldo Albuquerque foi uma luta entre pesos pesados e outsiders entusiastas. Durante sete meses de negociação, conseguimos viabilizar a sala, que foi inaugurada com uma mostra de curtas-metragens de Arnaldo, os primeiros desenhos animados do Piauí: Carcará, pega, mata e come, VãPirações e Mergulho , além de um pequeno documentário que produzimos, 70 e tantos Arnaldetes. A sala é anexada à Sala Torquato Neto, no MIS-PI — Museu da Imagem e do Som do Piauí. A importância dessa iniciativa está em criar condições para que a VidaObra de Arnaldo não seja consumida pelo assassinato cultural que fazem dele. Os materiais expostos nas paredes contam sua história por meio de textos e imagens, apresentados em molduras. Infelizmente, pelas condições de conservação do material original, não seria possível expô-lo. Optamos, então, por reproduções em alta resolução, que permitem ilustrar a Sala Arnaldo Albuquerque sem colocar em risco os documentos e obras originais.
Patrícia - A exposição Cacos de uma Memória Palpável reúne objetos pessoais, desenhos, produções sonoras e visuais. Como foi o processo de reunir e selecionar esse material para a Sala Arnaldo Albuquerque, e o que ainda existe no acervo que o público e os pesquisadores poderão conhecer ou acessar futuramente?
Bruno - Cacos de uma memória palpável diz sobre a condição de ausência de conhecimento sobre Arnaldo. Há muito a se fazer para que a historiografia se enriqueça com tal personagem. O que são expostos são cópias de trabalhos em jornais, desenhos animados na íntegra a primeira revista em quadrinhos do Piauí " Humor Sangrento" lançada em 1977. O que existe ainda que o público não viu, são pequenos recortes, flyers, e papéis manteigas que brevemente estarão digitalizados pela Cinelimite.
SUGESTÕES DE LEITURAS
Vã-pirações: Arnaldo Albuquerque um farol ideológico da contracultura em Teresina
http://repositorio.jesuita.org.br/handle/UNISINOS/13598
Nova sala do MIS resgata trajetória de Arnaldo Albuquerque, pioneiro dos quadrinhos no Piauí
Acesse mais detalhes sobre este livro: https://meli.la/1ByLvMP
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